Fiscalização encontrou leitos de UTI ociosos enquanto pacientes graves aguardavam internação, além de falta de insumos básicos; problemas atingem a principal vitrine administrativa do candidato ao Governo do Pará
Uma fiscalização do Ministério da Saúde colocou a saúde pública de Ananindeua no centro de uma nova crise. O Departamento Nacional de Auditoria do Sistema Único de Saúde (Denasus) identificou irregularidades em unidades municipais, incluindo leitos de UTI disponíveis enquanto pacientes graves permaneciam à espera de internação, deficiência estrutural e até falta de materiais básicos de higiene. Diante dos problemas, o órgão determinou a abertura de uma auditoria de caráter operacional, financeiro e de conformidade.
A situação também ganha peso político por atingir diretamente Ananindeua, município governado até abril deste ano por Dr. Daniel Santos (Podemos), atualmente candidato ao Governo do Pará. Embora a inspeção tenha ocorrido meses depois da saída do ex-prefeito e já durante a administração de Hugo Atayde, os problemas encontrados inevitavelmente colocam sob escrutínio o modelo de gestão municipal que Daniel apresenta como uma das principais credenciais de sua trajetória política.
Auditoria encontra UTI vazia e pacientes esperando em macas
A inspeção do Denasus foi realizada em 5 de agosto de 2026 no Hospital Municipal de Ananindeua e na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) 24h Icuí Daniel Berg.
Segundo o Ministério da Saúde, os auditores encontraram leitos de Unidade de Terapia Intensiva prontos, porém ociosos, enquanto pacientes em estado grave aguardavam transferência e internação.
Em alguns casos, conforme divulgado pelo governo federal, havia pacientes esperando por vaga há mais de um mês em macas de pronto atendimento.
O cenário chama atenção não apenas pela existência de demanda, mas pelo contraste entre pacientes precisando de atendimento especializado e uma estrutura de UTI que, segundo a fiscalização, não estava sendo utilizada.
Falta de sabonete e álcool também foi identificada
Os problemas não ficaram restritos à regulação dos leitos.
O Denasus também apontou deficiência na estrutura física das unidades e falta de insumos básicos de higienização, entre eles sabonete e álcool 70%.
Durante a visita, foram avaliadas questões relacionadas à infraestrutura, biossegurança, controle de infecção, fluxo de atendimento e regulação de pacientes críticos.
As conclusões da inspeção foram encaminhadas à Secretaria Municipal de Saúde de Ananindeua no dia 31 de agosto.
O Ministério da Saúde determinou a adoção de providências imediatas para solucionar problemas de infraestrutura, abastecimento de materiais e fluxo de regulação dos pacientes.
Recursos federais entram na mira da auditoria
Agora, a investigação deverá avançar sobre um ponto ainda mais sensível: o dinheiro público destinado à saúde de Ananindeua.
De acordo com o Ministério da Saúde, uma das frentes da auditoria será verificar a utilização dos recursos federais repassados ao município diante da ociosidade de leitos encontrada pelos fiscais.
Outra linha de investigação será a governança do sistema municipal de regulação de leitos, além da apuração de divergências entre as informações declaradas no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) e aquilo que os auditores efetivamente encontraram nas unidades.
A auditoria ainda está em andamento e, portanto, não há conclusão definitiva sobre eventuais responsáveis pelas irregularidades.
Crise atinge principal vitrine política de Dr. Daniel
Apesar de a fiscalização ter ocorrido sob a atual administração municipal, o episódio surge em um momento especialmente delicado para Dr. Daniel Santos.
Daniel comandou a Prefeitura de Ananindeua até 2 de abril de 2026, quando deixou o cargo para disputar o Governo do Pará. Hugo Atayde, até então vice-prefeito, assumiu o comando municipal.
Ananindeua ocupa posição central na trajetória política do candidato. Consequentemente, qualquer crise envolvendo a prestação de serviços essenciais no município tende a alimentar questionamentos sobre o legado administrativo construído durante sua passagem pela prefeitura.
A questão ganha dimensão ainda maior porque Daniel está entre os principais nomes da disputa pelo Palácio dos Despachos. Pesquisa Quaest divulgada em 29 de agosto mostrou o candidato do Podemos com 28% das intenções de voto, tecnicamente empatado com Hana Ghassan (MDB), que apareceu com 27%. A margem de erro é de três pontos percentuais.
Quem responde pelos problemas encontrados?
Há uma distinção importante: o relatório divulgado pelo Ministério da Saúde não atribui as irregularidades pessoalmente a Dr. Daniel Santos.
A fiscalização ocorreu em agosto, cerca de quatro meses depois que ele deixou a prefeitura.
Cabe à auditoria determinar as causas dos problemas, analisar a aplicação dos recursos e identificar eventuais responsabilidades.
Politicamente, porém, o episódio deixa uma pergunta que deve acompanhar o debate eleitoral: até que ponto o cenário encontrado atualmente na saúde de Ananindeua reflete problemas recentes ou dificuldades acumuladas ao longo dos últimos anos?
A resposta dependerá do avanço da auditoria.
Por enquanto, o que está oficialmente documentado é grave: pacientes precisando de UTI enquanto havia leitos ociosos, pessoas aguardando por longos períodos em macas, deficiência estrutural e ausência até mesmo de materiais básicos de higiene.
Para quem pretende usar Ananindeua como cartão de visitas para governar todo o Pará, o diagnóstico feito pelo próprio sistema federal de auditoria do SUS certamente não é uma fotografia confortável.
Foto: Reprodução