Psicóloga analisa “polarização” política, saúde mental dos indivíduos e discussões em família em tempos de eleições

Psicóloga analisa “polarização” política, saúde mental dos indivíduos e discussões em família em tempos de eleições
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Especialista explica como o cenário eleitoral afeta a saúde mental e os vínculos familiares, oferecendo estratégias para discussões

Com o primeiro turno das Eleições Gerais marcado para 4 de outubro e o eventual segundo turno para o dia 25, a disputa política segue ocupando as conversas dentro e fora de casa. Desde 2018, a “polarização” atravessa relações que antes se organizavam pelo afeto e pelo parentesco, e a família está entre os espaços mais atingidos. Para a psicóloga Lia Botega, o problema não é pensar diferente.

“Quem nunca teve um amigo ou um familiar que não concorda com suas posições políticas? O problema é quando essa diferença deixa de ser uma divergência e a pessoa passa a ser tratada como um inimigo”, explica Lia, que é mestra em Comunicação, Linguagem e Cultura, Gestalt-terapeuta, professora e supervisora clínica, e atende adultos e famílias.

Segundo ela, o dano é maior no ambiente familiar porque atinge vínculos construídos ao longo de anos. “A família é um espaço de troca, mas, quando a polarização se torna muito intensa, aquilo que poderia ser uma conversa passa a ser uma disputa. A dificuldade de aceitar que o outro tenha um olhar diferente pode tornar insustentável estar junto.”

Os sinais de alerta

Nem sempre o impacto aparece em uma briga explícita. Pode surgir como irritação constante, ansiedade, dificuldade de se desligar do noticiário, necessidade de acompanhar as redes o tempo todo ou vontade de evitar certas pessoas. Nos encontros, aparece em quem já chega esperando a discussão, em quem se cala para não criar atrito ou em quem sente que precisa rebater cada comentário.

“É importante observar quando a pessoa deixa de conseguir estar em um encontro familiar sem entrar em estado permanente de defesa ou de ataque. A divergência política não deveria determinar toda a experiência daquele encontro”, afirma a psicóloga.

Conviver não é concordar

Para Lia, o caminho não passa por eliminar a diferença, mas por aprender a conviver com ela. “Será que a pluralidade não é possível? Nós podemos pensar diferente e continuar reconhecendo o outro como alguém que faz parte da nossa vida. O problema começa quando a diferença passa a justificar a desumanização do outro”, avalia.

Na prática, isso pode significar reconhecer antes os limites de cada encontro: evitar certos assuntos durante a refeição, mudar de tema quando a conversa endurece ou aceitar que algumas divergências não serão resolvidas ali. Em Belém, onde o Círio de Nazaré, no dia 11, cai entre os dois turnos e reúne parentes que pouco se veem no resto do ano, o cuidado ganha peso extra. Não se trata de proibir a política, mas de perceber que nem todo espaço precisa virar disputa.

As crianças estão observando…

Tom de voz, ironias, afastamentos e comentários depreciativos também são percebidos pelos mais novos, mesmo quando os adultos acham que eles não estão atentos. “Crianças e adolescentes aprendem também observando como os adultos lidam com o conflito. Eles podem aprender que discordar significa atacar, romper ou desqualificar o outro, mas também podem aprender que é possível discordar e continuar em relação”, explica.

A psicóloga também propõe ampliar o próprio sentido de política. “Política não é somente aquilo que um candidato fala. Política também é ter direito à vacina, ao saneamento básico, à alimentação, à energia com preço justo. É discutir que sociedade queremos construir e quais condições queremos garantir para as pessoas, inclusive dentro da nossa própria família.” Trocar o “quem está certo?” por “o que precisamos enfrentar juntos?” pode “baixar a temperatura” e fortalecer os vínculos familiares.

Existe caminho de volta?

O fim da apuração não encerra automaticamente os conflitos. Ofensas e rompimentos podem persistir, e a reconstrução costuma exigir reconhecer o que aconteceu, estabelecer limites e retomar a comunicação aos poucos. Isso não significa fingir que nada ocorreu, nem permanecer em uma relação que se tornou abusiva. Significa avaliar se há espaço para novas formas de convivência.

Em outubro, cada eleitor entra sozinho na cabine de votação, mas volta para casa acompanhado. A urna guarda o voto por alguns segundos; a mesa da família guarda histórias de décadas. Talvez o maior desafio deste período não seja convencer o pai, a irmã ou o tio a mudar de candidato, mas garantir que, encerrada a apuração, ainda haja lugar para todos em volta dela. Discordar faz parte da democracia. Deixar de reconhecer o outro como parte da própria história, não.

Foto: Divulgação

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