Aos 25 anos, a tocantinense Tainá Marrirú Karajá entra para a história como a primeira mulher indígena a participar do concurso Miss Brasil Mundo, que chega à sua 64ª edição. Representando o estado do Tocantins no Miss Brasil Mundo 2026, ela leva ao palco nacional uma trajetória marcada por educação, esporte, pesquisa científica e compromisso social com povos originários.
Natural da Aldeia Santa Isabel do Morro, localizada na Ilha do Bananal, no município de Lagoa da Confusão, Tainá afirma que a chegada ao concurso é resultado de um processo construído ao longo dos anos, guiado pelo propósito de valorizar suas origens e ampliar a visibilidade indígena em espaços historicamente excludentes. A grande final da competição será no dia 31 de janeiro.
Formada em Educação Física pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Tainá atua como atleta, professora e pesquisadora. Ela também integrou o Distrito Sanitário Especial Indígena do Tocantins (DSEI/TO), onde desenvolveu atividades voltadas à promoção da saúde em territórios indígenas.
Paralelamente à preparação para concursos de beleza — universo que frequenta desde os 16 anos —, a representante tocantinense lidera o projeto voluntário Ahãdu, iniciativa que utiliza o esporte como ferramenta de acolhimento emocional, fortalecimento da autoestima e prevenção ao suicídio entre crianças e jovens indígenas.
O nome do projeto vem do idioma Inyrybe, falado pelo povo Iny Karajá, e significa “Lua”. A iniciativa surgiu durante a pandemia de Covid-19, quando Tainá passou a observar o impacto do isolamento social e o aumento de transtornos como ansiedade e depressão, especialmente em comunidades indígenas com acesso limitado a políticas de saúde mental.
A proposta do Ahãdu é criar ambientes seguros de escuta e convivência por meio da prática esportiva, respeitando os saberes tradicionais e as especificidades culturais de cada território.
Representatividade indígena em destaque nacional
Tainá Marrirú pertence ao povo Iny, grupo indígena de língua Macro-Jê que habita as margens do rio Araguaia, nos estados do Tocantins, Goiás, Mato Grosso e Pará. O povo Iny se divide nos subgrupos Karajá, Javaé e Karajá Xambioá e é reconhecido pela forte relação com o rio e pela produção das bonecas de cerâmica Ritxoko, patrimônio cultural do Brasil.
Considerado o maior povo indígena do Tocantins, o grupo tem sua história marcada pela resistência cultural e pela preservação de saberes ancestrais.
Com a participação no Miss Brasil Mundo, Tainá afirma que seu objetivo vai além da competição. Para ela, o concurso é uma plataforma de diálogo sobre identidade, diversidade e protagonismo indígena. O próximo passo é representar o Brasil no Miss World, etapa internacional do concurso.
“A minha presença nesses espaços é também coletiva. Carrego comigo a história do meu povo e o compromisso de abrir caminhos para outras mulheres indígenas”, afirma.