Iniciativa fortalece organizações sociais do Norte, Nordeste e Centro-Oeste e já contribuiu para a aprovação de 270 projetos; participantes captaram mais de R$ 40 milhões nos últimos três anos
Apesar de a Lei de Incentivo ao Esporte (LIE) ter mobilizado mais de R$ 6,5 bilhões entre 2007 e 2024, a distribuição desses recursos ainda revela uma forte desigualdade regional no Brasil. Do total movimentado no período, 74% ficaram com proponentes do Sudeste e 15% com os do Sul. Enquanto isso, apenas 11% foram divididos entre Nordeste, Centro-Oeste e Norte, sendo somente 2% destinados a proponentes da região Norte.
É diante desse cenário que atua a Rede CT – Capacitação e Transformação, iniciativa voltada ao fortalecimento de organizações da sociedade civil que trabalham com esporte nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. A proposta é ampliar o acesso à Lei de Incentivo ao Esporte por meio de formação, acompanhamento técnico e estratégias que ajudem essas instituições a estruturar projetos e buscar recursos.
A concentração histórica dos investimentos mostra que o desafio não está apenas na existência de recursos, mas nas condições para que organizações de diferentes regiões consigam acessá-los. Muitas instituições desenvolvem projetos relevantes em seus territórios, mas ainda enfrentam dificuldades relacionadas ao conhecimento técnico da legislação, elaboração de propostas, organização documental, captação e relacionamento com potenciais patrocinadores.
Para Fernando Salum, diretor da Rede Igapó, uma das organizações responsáveis pela Rede CT, ampliar o volume disponível por meio das leis de incentivo precisa caminhar junto com uma discussão sobre a distribuição desses investimentos.
“Quando olhamos para os números, fica evidente que não basta ampliar a quantidade de recursos disponíveis se eles continuarem concentrados nos mesmos territórios. Existem organizações extremamente potentes no Norte, Nordeste e Centro-Oeste, com impacto comprovado em suas comunidades, mas que historicamente tiveram menos acesso às ferramentas e às conexões necessárias para captar. A Rede CT trabalha justamente para reduzir essa distância e criar condições para que essas organizações ocupem esse espaço com mais autonomia”, destaca Salum.
Mais de R$ 40 milhões captados
Os resultados obtidos pelos participantes ajudam a dimensionar esse movimento. Nos últimos três anos, organizações que passaram pela Rede CT captaram mais de R$ 40 milhões por meio da Lei de Incentivo ao Esporte.
No mesmo período, a iniciativa colaborou para a aprovação de 270 projetos, que representam 16,3% de todos os projetos aprovados no Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Juntos, esses projetos formam uma carteira de aproximadamente R$ 190 milhões em possibilidades de investimento social.
Outro indicador chama atenção para o impacto da formação no acesso de novos atores ao mecanismo: 52,3% dos proponentes da Rede CT conseguiram captar recursos financeiros pela primeira vez em sua trajetória, enquanto 77,8% eram proponentes que estavam tendo a primeira experiência com esse tipo de mecanismo.
Segundo Fernando Salum, esses números reforçam que a descentralização depende também de investimento na capacidade institucional das organizações.
“Quando uma organização aprende a elaborar seus projetos, organizar sua documentação, apresentar seu impacto e construir uma estratégia de captação, ela deixa de depender exclusivamente de oportunidades pontuais. Esse conhecimento permanece no território. Fortalecer essas instituições significa criar capacidade para que elas continuem acessando recursos e desenvolvendo novos projetos no futuro”, afirma.
Descentralização ainda avança de forma lenta
Os dados mais recentes indicam algum avanço na distribuição regional, embora o movimento ainda seja instável. Entre 2022 e 2025, Norte, Nordeste e Centro-Oeste ampliaram sua participação na captação, fazendo com que a fatia do Sudeste recuasse de 74% da série histórica para cerca de 71% no período.
Em 2025, porém, houve um movimento contrário, com os proponentes do Sudeste voltando a concentrar quase 75% dos recursos captados. Para a Rede CT, o cenário evidencia que a descentralização não ocorre de forma automática e exige ações permanentes de formação, relacionamento e aproximação entre organizações sociais e investidores.
Criada a partir da atuação conjunta da Rede Igapó e do Instituto Futebol de Rua, a Rede CT busca transformar conhecimento técnico em capacidade institucional e aproximar organizações que desenvolvem projetos esportivos de oportunidades de financiamento.
Além da elaboração de projetos, a jornada envolve temas como planejamento, orçamento, documentação, comunicação institucional, identificação de patrocinadores e construção de estratégias de captação.
Para Salum, o fortalecimento de redes também é determinante para alterar o mapa dos investimentos incentivados no país.
“Uma organização fortalecida consegue avançar, mas uma rede de organizações fortalecidas tem capacidade de transformar todo um ecossistema. Quando criamos espaços de troca, formação e conexão, ampliamos também a visibilidade de projetos que estão fora dos grandes centros. O próximo passo da Lei de Incentivo ao Esporte precisa ser olhar não apenas para quanto o Brasil consegue mobilizar, mas para onde esse dinheiro está chegando”, conclui.
Com a perspectiva de crescimento do volume de recursos disponíveis para o esporte nos próximos anos, a discussão sobre descentralização ganha ainda mais relevância. Para a Rede CT, a ampliação do mecanismo representa uma oportunidade para que o aumento do investimento seja acompanhado também pela entrada de novos territórios, organizações e comunidades no mapa do investimento social incentivado brasileiro.
Sobre a Rede CT – Capacitação e Transformação
A Rede CT – Capacitação e Transformação nasce da união de mais de 20 anos de experiência do Instituto Futebol de Rua em desenvolvimento e captação de recursos com a Rede Igapó em projetos incentivados. A iniciativa conta com o Itaú como patrocinador master, além do patrocínio da B3 e do Instituto Aegea, e tem como objetivo capacitar empreendedores sociais esportivos para o uso da Lei Federal de Incentivo ao Esporte, apoiando programas que utilizam a prática esportiva como ferramenta de transformação social.
Foto: Bruno Kellu