Relatório final identificou falhas técnicas, operacionais e de fiscalização entre os 19 fatores que contribuíram para a queda do voo 2283, que matou 62 pessoas em Vinhedo.
O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) concluiu que o avião da Voepass que caiu em Vinhedo, no interior de São Paulo, não deveria ter sido liberado para o voo nas condições encontradas antes da partida. O relatório final foi divulgado na quinta-feira (23), quase dois anos após o acidente.
O ATR 72-500, de matrícula PS-VPB, operava o voo 2283 da Voepass entre Cascavel, no Paraná, e Guarulhos, em São Paulo. A queda ocorreu em 9 de agosto de 2024 e matou todas as 62 pessoas a bordo, sendo 58 passageiros e quatro tripulantes. O relatório foi apresentado oficialmente pela Força Aérea Brasileira.
Falha no limpador impedia despacho da aeronave
De acordo com o investigador responsável pelo caso, o avião apresentava dez itens com falhas antes da decolagem. Entre eles estava o limpador do para-brisa, cuja indisponibilidade impedia a operação quando houvesse previsão de chuva dentro do período estabelecido na Lista de Equipamentos Mínimos da aeronave.
Os dados meteorológicos indicavam possibilidade de precipitação no horário do voo. Por essa razão, segundo o Cenipa, o avião não poderia ter sido despachado de Cascavel nas condições observadas. A falha no limpador, entretanto, não foi apontada como responsável direta pela queda.
Acúmulo de gelo provocou perda de desempenho
Durante o trajeto, a aeronave entrou em uma região com condições severas para formação de gelo. O sistema pneumático de degelo, chamado Airframe De-Icing, apresentou falhas, enquanto o gelo acumulado nas superfícies do avião aumentou o arrasto e comprometeu o desempenho.
A aeronave perdeu velocidade e sustentação, entrou em estol aerodinâmico e, posteriormente, em um movimento de rotação conhecido como parafuso chato. O avião caiu sobre uma área residencial de Vinhedo. Não houve vítimas em solo.
Cenipa aponta falhas na atuação da tripulação
O relatório também identificou problemas na resposta dos pilotos aos alertas emitidos durante o voo. Segundo a investigação, a tripulação demorou a perceber a gravidade da perda de desempenho e não executou em tempo adequado os procedimentos recomendados pelo fabricante para deixar a área de formação severa de gelo.
O Cenipa ressaltou, porém, que os dois pilotos estavam regularmente habilitados e haviam recebido treinamento específico para operações em condições de gelo e recuperação da perda de controle.
Investigação identificou cultura de desvios na Voepass
A análise dos três voos anteriores realizados pela mesma aeronave encontrou registros de falhas no sistema de degelo que não teriam sido formalizados no diário de bordo, como determina a legislação.
Posteriormente, o Cenipa ampliou a investigação para 1.206 voos da companhia e identificou comportamentos semelhantes em outras operações. Para os investigadores, problemas técnicos passaram a ser tratados informalmente, dificultando a realização de reparos definitivos e contribuindo para a normalização de desvios de segurança. O relatório enumerou 19 fatores contribuintes para o acidente.
Fiscalização da Anac também foi analisada
A atuação da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) aparece entre os fatores avaliados. Embora a agência tenha realizado fiscalizações, aplicado sanções e determinado intervenções na companhia antes do acidente, o Cenipa considerou que as medidas não foram suficientes para eliminar os riscos existentes.
Em nota, a Anac informou que analisará detalhadamente as conclusões e as recomendações relacionadas às suas atribuições. A Voepass afirmou que colaborou com a investigação e reiterou solidariedade às famílias das vítimas.
O Cenipa destacou que a investigação possui caráter preventivo. O documento busca identificar fatores contribuintes e recomendar melhorias para a segurança da aviação, sem determinar culpa ou responsabilidade civil e criminal. As manifestações da Anac e da Voepass foram divulgadas após a apresentação do relatório.
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