A euforia provocada pela conferência da ONU transformou o mercado imobiliário da capital paraense. Mas quem acredita que o setor acabou após o evento pode estar olhando para o problema da forma errada
Por Thiago Baia – Consultor Financeiro Imobiliário | CEO da ICON Soluções Imobiliárias
Você reformou o apartamento, comprou colchão novo, aprendeu a usar o Airbnb pela primeira vez. Tudo por causa da COP 30.
E agora o calendário está vazio.
Se essa frase te descreveu, este artigo é para você — porque o mercado não morreu. Ele apenas voltou ao normal. E quem entender isso primeiro vai sair na frente.
O despertar de um gigante — e a ressaca que veio depois
Belém viveu, em 2025, algo que poucas cidades brasileiras experimentaram: a sensação de ser o centro do mundo.
A COP 30, primeira conferência climática da ONU realizada na Amazônia, transformou a capital paraense em palco global — e o mercado imobiliário sentiu isso na pele.
A corrida foi intensa.
O Airbnb registrou um salto de 54% no número de leitos disponíveis em Belém em 2025, impulsionado pela parceria com o Governo do Pará. Proprietários que nunca tinham pensado em hospedar abriram conta na plataforma, reformaram tudo, precificaram em dólar.
Alguns anúncios chegaram a cifras que pareciam de outro planeta: apartamentos sendo ofertados por R$ 2,3 milhões para menos de 20 diárias.
Mas o mercado respondeu antes mesmo do evento acabar.
O próprio Airbnb registrou, já em outubro de 2025, uma queda de 47% no preço médio das diárias em Belém em relação a fevereiro do mesmo ano.
A oferta havia estourado. A demanda não acompanhou.
Queda no preço médio das diárias em Belém registrada pelo Airbnb em outubro de 2025, na comparação com fevereiro do mesmo ano. O mercado corrigiu antes mesmo do encerramento do evento.
O evento terminou.
E com ele, para muitos proprietários, veio o silêncio.
O calendário de reservas esvaziou. A conta da reforma ainda está aberta. E a dúvida bate forte: volto para o aluguel anual ou mantenho o imóvel na temporada?
O erro de confundir evento com mercado
Antes de responder a essa pergunta, é preciso fazer o diagnóstico correto.
E, como alguém que atua no mercado imobiliário de Belém, preciso ser direto:
O mercado de temporada em Belém não morreu. Ele voltou ao normal.
Durante a COP 30, qualquer quarto com ar-condicionado era disputado. O hóspede não tinha escolha — era delegado, jornalista, executivo de multinacional com passagem comprada e prazo fixo.
Um mercado artificial, inflado por uma demanda global única.
Isso não é o mercado real de Belém.
Era a exceção.
O turista comum — que é quem vai ocupar o imóvel ao longo do ano — é completamente diferente.
Ele pesquisa. Ele compara. Ele lê as avaliações com atenção. Ele olha as fotos e decide em 30 segundos se quer ou não ficar ali.
Ele tem opções.
E ele escolhe com critério.
E aqui está o erro mais comum que vejo proprietários cometendo agora: achar que basta manter o imóvel listado.
Sem precificação dinâmica, sem fotos profissionais, sem atendimento rápido nas plataformas — o imóvel literalmente morre no algoritmo do Airbnb e do Booking.
Aparece cada vez menos.
E quando aparece, perde para a concorrência que soube se profissionalizar.
O caminho não é desistir. É profissionalizar
Para quem já investiu — reformou, comprou móveis novos, aprendeu a gerenciar plataformas — voltar atrás agora é desperdiçar tudo que foi construído.
O aluguel anual de R$ 1.500 não vai pagar a reforma que foi feita pensando em R$ 800 a diária.
A resposta está na profissionalização da operação.
Belém tem ativos reais que sustentam um mercado de temporada saudável muito além de grandes eventos: a gastronomia paraense que virou referência internacional, o turismo amazônico em crescimento constante, o fluxo de negócios regionais, e toda a infraestrutura que a própria COP 30 deixou como legado — obras de mobilidade, saneamento, espaços públicos e uma visibilidade global que a cidade nunca havia tido.
Mas capturar esse potencial exige gestão.
E gestão é exatamente o que a maioria dos proprietários que entraram no mercado durante a COP não tem — nem tempo, nem conhecimento, nem estrutura.
Imóveis bem geridos — com precificação dinâmica, fotos profissionais e atendimento ágil — chegam a gerar entre 2x e 3x mais receita do que propriedades sem gestão na mesma faixa de preço e localização.
O que gestão profissional significa na prática
Existe uma diferença enorme entre ter o imóvel listado e ter o imóvel gerido.
Deixa eu te mostrar essa diferença com exemplos concretos.
Gestão de verdade é saber cobrar R$ 380 numa quinta-feira e R$ 620 no mesmo quarto no sábado de feriado — porque um sistema de precificação dinâmica está trabalhando enquanto o proprietário dorme.
É ter uma fotografia que faz o viajante parar o scroll e pensar: “quero ficar aqui”.
É responder à mensagem do hóspede às 23h sem que o proprietário precise acordar.
É resolver o vazamento antes que a avaliação negativa apareça.
É a limpeza pronta em duas horas entre um check-out e o próximo check-in, em padrão hoteleiro.
E no final do mês?
O proprietário recebe o rendimento líquido.
Nota fiscal, taxas de plataforma, regras do condomínio — isso fica com quem tem estrutura para cuidar.
O proprietário tem renda passiva de verdade.
O legado pertence a quem souber aproveitá-lo
A COP 30 deixou para Belém algo que nenhuma crise vai apagar: visibilidade global, infraestrutura renovada e uma geração inteira de proprietários que, pela primeira vez na vida, enxergou o potencial real dos seus imóveis.
Isso é um legado.
E legado não se desperdiça.
Quem entender que o ciclo do amadorismo acabou — e que o mercado agora pertence a quem opera com estratégia — vai deixar de ser órfão da COP 30 e vai se tornar um investidor de renda passiva sustentável.
Quem não entender vai continuar com um apartamento reformado, um calendário vazio e a conta da reforma ainda por pagar.
O mercado está aí.
A Belém turística, gastronômica e amazônica é real.
A questão é: você vai deixar esse ativo trabalhar para você, ou vai continuar gerindo como amador?
Foto: Imagem gerada por IA