Brasil registrou 150 mil casos de violência contra pessoas em situação de rua em 10 anos

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O Brasil registrou cerca de 150 mil episódios de violência contra pessoas em situação de rua entre 2014 e 2023. Os dados são do estudo “A Cartografia Invisível: 10 anos de Violência contra a População em Situação de Rua”, divulgado pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua da Universidade Federal de Minas Gerais (OBPopRua/POLOS-UFMG).

A pesquisa ganha relevância semanas após um caso de grande repercussão em Belém. Em abril deste ano, um homem em situação de rua foi alvo de agressões praticadas por estudantes universitários. Vídeos compartilhados nas redes sociais mostraram os suspeitos aplicando descargas elétricas na vítima enquanto ela caminhava por uma via pública. O caso gerou indignação e repercussão nacional.

Segundo o levantamento, os números oficiais representam apenas uma parte da realidade enfrentada pela população em situação de rua. A estimativa é que cerca de 70% das vítimas não procurem atendimento ou não registrem as agressões junto às autoridades.

Subnotificação esconde dimensão da violência

De acordo com o coordenador do estudo, o professor André Luiz Freitas Dias, o principal desafio é a subnotificação dos casos.

Segundo ele, o medo, a desconfiança nas instituições, experiências anteriores de discriminação e as dificuldades de acesso aos serviços públicos fazem com que muitas vítimas deixem de denunciar as agressões sofridas.

A pesquisa aponta que, diariamente, pelo menos 120 casos graves de violência contra pessoas em situação de rua chegam ao sistema de saúde. Em 75% das ocorrências, as lesões exigiram atendimento médico imediato e, em 12% dos casos, houve trauma grave ou morte.

Homens negros e jovens são as principais vítimas

O estudo mostra que a violência atinge principalmente homens negros em situação de vulnerabilidade social. Pretos e pardos representam 78% das vítimas registradas, enquanto pessoas entre 15 e 49 anos concentram 82% dos casos.

Embora os homens sejam maioria entre as vítimas, a pesquisa destaca que agressões contra mulheres e pessoas trans costumam apresentar maior letalidade.

Segundo os pesquisadores, os dados refletem problemas estruturais como racismo, desigualdade social e exclusão econômica.

Violência física lidera registros

Entre os tipos de violência identificados pelo estudo, a agressão física aparece como a mais frequente, representando 65% dos registros.

Também foram contabilizados casos de violência psicológica (42%), negligência e abandono (18%), violência sexual (15%) e violência autoprovocada (10%).

A maior parte dos episódios ocorre em vias públicas, ambiente onde vivem milhares de brasileiros em situação de rua. No entanto, os pesquisadores alertam que também há registros de violência em locais que deveriam oferecer acolhimento e proteção, como abrigos e instituições assistenciais.

Casos aumentaram nos últimos anos

A pesquisa aponta crescimento contínuo das notificações ao longo da última década. Apenas entre 2020 e 2023, as denúncias registradas no Disque 100 saltaram de aproximadamente 12,5 mil para 45,8 mil casos.

Estados como São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Ceará e Rio de Janeiro registraram aumentos considerados críticos nos indicadores de violência.

Para os pesquisadores, o enfrentamento do problema exige mais do que ações de segurança pública. Entre as medidas apontadas estão a ampliação de políticas de moradia, educação, trabalho e assistência social, além do fortalecimento das redes de acolhimento e proteção para a população em situação de rua.

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