Produções dirigidas por mulheres da Amazônia Legal e da Pan-Amazônia são premiadas em Belém

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A 3ª Mostra Competitiva “As Amazonas do Cinema” integrou a programação oficial do 11º Festival Pan-Amazônico de Cinema – Amazônia FiDoc e reuniu produções dirigidas por mulheres de diferentes territórios da Amazônia Legal e da Pan-Amazônia. O evento ocorreu no último sábado (2), na Casa das Artes, em Belém, e teve como objetivo ampliar a visibilidade das narrativas femininas no audiovisual. 

A mostra, que teve exibições do dia 30 de abril a 2 de maio, apresentou ao público uma programação que reuniu curtas e longas-metragens, além de atividades formativas como debates, oficinas e encontros com realizadoras e profissionais do setor. As obras selecionadas abordaram diferentes perspectivas sobre território, identidade, memória e experiências vividas por mulheres na região amazônica. Além disso, a iniciativa reuniu filmes realizados por mulheres cis e trans, agregando diversidade e protagonismo feminino no festival. 

A coordenadora geral do festival, Zienhe Castro, destacou que, ao longo dos 17 anos de realização do evento, foi possível acompanhar transformações significativas no setor audiovisual.

“Com o avanço de políticas públicas, como as cotas de gênero, percebemos uma evolução significativa na participação das mulheres no audiovisual. Esse crescimento se reflete não apenas na direção e no roteiro, mas também nos bastidores, com mais mulheres integrando as equipes técnicas. É muito gratificante observar esse movimento e ver o fortalecimento da presença feminina no setor audiovisual da Amazônia”, disse Zienhe.

A 11ª edição do festival conta com patrocínio da Petrobras, por meio da Lei Rouanet de Incentivo a Projetos Culturais, Ministério da Cultura e Governo do Brasil, com apoio cultural do Governo do Estado do Pará, Sesc/Pará, Fórum dos Festivais e Mistika. Parceria: Aliança Francesa Belém, Instituto +Mulheres, FICCI e Apex Brasil. A realização e produção são da Z Filmes e do Instituto Culta da Amazônia.

A sessão deste sábado reuniu uma seleção de produções nacionais com diferentes abordagens narrativas e estéticas. Entre os filmes exibidos estiveram “Todavía Baila” (AM), “Replikka” (SP), “Da Janela” (MG) e “Desejo de Viver” (SP). Na programação da noite, o público também acompanhou a exibição de “Quatro Luas Pantaneiras” (MS), que antecedeu a cerimônia de encerramento e premiação da mostra.

Débora Mcdowell, uma das curadoras da mostra, destacou as principais tendências observadas na produção recente das mulheres no audiovisual, marcada por diversidade de temas e novos olhares narrativos.

“Os temas são muito plurais, mas a gente percebe um olhar feminino mais recente voltado para questões como migração, direitos humanos, pauta indígena, racial e também novas formas de enxergar a masculinidade. É uma produção que traz frescor e mostra um novo momento do cinema”, afirmou.

À frente da Mostra As Amazonas do Cinema também esteve Flavia Guerra. O júri oficial da mostra foi formado por Ariadne Mazzetti e Tay Pinheiro

Premiação da edição 2026

Durante a cerimônia, foram divulgados os filmes vencedores da mostra, com destaque para obras reconhecidas por seus aspectos estéticos, narrativos e temáticos. Os resultados evidenciam a variedade de perspectivas femininas presentes na programação e reforçam a presença de realizadoras da Amazônia e da Pan-Amazônia no audiovisual contemporâneo.

As obras selecionadas ganharam o Troféu Amazonas do Cinema, desenvolvido pela artista plástica Lize Lobato, além de prêmios em dinheiro: R$5 mil para o Melhor Curta ou Média-Metragem e R$10 mil para o Melhor Longa-Metragem, ambos escolhidos pelo Júri Oficial. Também foi concedido troféu para o Prêmio de Menção Honrosa, já o de Júri Popular será anunciado no dia 6 de maio. Na mesma data, também serão divulgados os resultados das mostras competitivas da Amazônia Legal e da Pan-Amazônia, nas categorias de melhor curta e melhor longa-metragem, com cerimônia marcada no Cine Líbero.

Vencedores

O documentário Quatro Luas Pantaneiras(MS) recebeu o Prêmio de Menção Honrosa. A obra fala sobre a vida e trajetória de quatro mulheres do Pantanal. A diretora Ana Carla Loureiro agradeceu o reconhecimento e falou sobre a importância do assunto tratado.

“O Pantanal tem uma ocupação econômica de cerca de 200 anos, e a mulher pantaneira sempre foi invisibilizada nesse processo. Muito já se falou dos animais, da beleza e da grandiosidade do território, mas pouco, quase nada se falou dessas mulheres”, disse.

Na categoria de Melhor Curta ou Média-Metragem, o vencedor foi “Rami Rami Kirami(AC), que retrata saberes e aprendizados ancestrais que por muito tempo foram negados às mulheres. As realizadoras Lira Mawapai HuniKui e Luciana Tira HuniKu não puderam estar presentes, por isso a jurada Tay Pinheiro falou sobre a sensibilidade da obra.

“Essa obra tem uma narrativa muito sensível, que nos tocou bastante, inclusive por retratar um ritual que é compartilhado entre mulheres e passado de geração em geração. Foi por isso que decidimos escolher este filme”, destacou a curadoria.

Além do prêmio, as diretoras ganharam R$15 mil da produtora Mistika Post para investir em suas próximas obras.

O prêmio principal da noite, de Melhor Longa-Metragem, foi para o filme equatoriano Mama”, da diretora Ana Cristina Benitez, que demonstrou surpresa e muita emoção, por ser um projeto pessoal que trata de sua experiência na luta contra o câncer de mama.

“Muito obrigada, de verdade. Eu nem sabia que estava competindo. Este é um filme muito íntimo, que nasce do meu próprio processo com o câncer de mama. Foi difícil filmar, mas senti que era importante para que possamos falar sobre isso e incentivar conversas, para que as pessoas saibam como acompanhar quem está passando por um momento tão vulnerável”, afirmou.

A diretora também apresentou, e deu de presente ao festival, o jogo de cartas “Acompanhar também se aprende”, que propõe orientar formas mais sensíveis de apoiar pessoas em tratamento de câncer de mama. 

Confira a lista completa de obras premiadas da noite:

Menção Honrosa pelo júri oficial

Obra: Quatro Luas Pantaneiras (MS) – 1h16min

Direção: Ana Carla Loureiro

Sinopse: “Quatro Luas Pantaneiras” é um documentário que explora a vida de quatro mulheres que vivem no Pantanal, mostrando suas histórias e trajetórias.

Melhor curta-metragem pelo júri oficial

Obra: Rami Rami Kirami (AC) – 33min

Direção: Lira Mawapai HuniKui e Luciana Tira HuniKu

Sinopse: Até pouco tempo, as mulheres Huni Kuin não podiam consagrar e preparar o Nixi Pae (ayahuasca), apenas os homens conheciam o poder dessa medicina. Um filme sobre os aprendizados, as transformações e a força da ayahuasca através das mulheres Huni Kuin.

Melhor longa pelo júri oficial 

Obra: Mama (ECUADOR) – 1h35min

Direção: Ana Cristina Benitez

Sinopse: Aos 36 anos, Ana recebe o diagnóstico de câncer de mama em estágio avançado. Refletindo sobre sua vida e encontrando refúgio em sua câmera, Ana confronta sua cicatriz e um corpo fragilizado e exausto, conectando-se profundamente consigo mesma, com sua família, com seu passado e com suas raízes, e descobrindo que o processo de cura vai além do físico.

Curtas convidados

Após a premiação, foram exibidos dois curtas-metragens convidados. O primeiro, “Americana”, de Agarb Braga, retrata as vivências de mulheres trans da periferia de Belém e concorre, neste ano, ao Prêmio Grande Otelo. Já o segundo, “Taru Andé”, de Amaru, apresenta três momentos pessoais da vida da diretora, como o parto de seu filho, o ritual de enterro da placenta e outras experiências marcantes.

Foto: Divulgação

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