Dia Mundial de Conscientização do Autismo reforça inclusão e combate ao preconceito
Nesta quinta-feira (2), é celebrado o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) para ampliar o conhecimento sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), reduzir o preconceito e promover a inclusão de pessoas autistas na sociedade.
🧩 A data também busca incentivar a criação de políticas públicas e o acesso a direitos básicos, como saúde, educação e trabalho. Em diversos locais, ações simbólicas como a iluminação de monumentos na cor azul marcam a mobilização.
No Brasil, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima que cerca de 2,4 milhões de pessoas tenham diagnóstico de TEA, o equivalente a aproximadamente 1,2% da população. Desse total, 1,4 milhão são homens e 1 milhão são mulheres, com maior prevalência entre crianças de 5 a 9 anos. Apesar do avanço na informação, comportamentos associados ao autismo ainda são mal interpretados, o que pode levar a julgamentos, isolamento e atraso no diagnóstico.
Autismo é um espectro e se manifesta de diferentes formas
O autismo é caracterizado por diferenças no desenvolvimento neurológico, afetando comunicação, comportamento e interação social em diferentes níveis de suporte ao longo da vida.
Segundo a neuropsicóloga Jessica Neves, em entrevista ao Norte Hoje, o TEA é classificado como um espectro justamente pela diversidade de manifestações. “Segundo o DSM-5, o TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por dois grandes grupos de sinais: déficits persistentes na comunicação social e na interação social e padrões restritos e repetitivos de comportamentos, interesses ou atividades. Ele é chamado de ‘espectro’ porque não existe uma forma única de autismo”, explicou.
A especialista acrescenta que duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem apresentar características muito diferentes, variando na intensidade dos sintomas, linguagem, sensorialidade e necessidade de apoio.
Importância da conscientização vai além da visibilidade
De acordo com a especialista, a data tem papel fundamental no enfrentamento da desinformação e na ampliação de direitos. “O Dia Mundial de Conscientização do Autismo, em 2 de abril, foi instituído pela ONU para ampliar o conhecimento social sobre o autismo e promover direitos, dignidade, participação social e inclusão”, disse.
Ela ressalta que a discussão precisa avançar para além da visibilidade. “Na prática, a data é importante porque ajuda a combater desinformação, reduzir estigma, favorecer identificação mais precoce, pressionar por políticas públicas e lembrar que pessoas autistas precisam de acesso real a saúde, educação, trabalho e vida comunitária — não apenas ‘visibilidade'”, afirmou.
Sinais podem aparecer ainda nos primeiros anos de vida
A identificação precoce é um dos principais fatores para garantir qualidade de vida. Os sinais iniciais geralmente estão relacionados ao desenvolvimento social, comunicativo e comportamental.
Entre os principais indícios, segundo a especialista, estão:
- não responder ao nome por volta de 9 meses;
- pouco contato visual;
- redução de expressões faciais;
- ausência de gestos como apontar ou dar tchau até 12 meses;
- atrasos ou diferenças na linguagem;
- brincadeiras pouco simbólicas;
- movimentos repetitivos e interesses restritos;
- reações sensoriais incomuns.
“Nem todo atraso isolado significa autismo, mas um conjunto desses sinais justifica avaliação do desenvolvimento”, explicou Jessica. Segundo ela, alguns sinais podem surgir ainda no primeiro ano de vida, enquanto em outras crianças ficam mais evidentes entre 18 e 24 meses.
O diagnóstico pode ser feito ainda na primeira infância. “De acordo com o CDC, o TEA pode ser percebido já aos 18 meses ou antes, e por volta dos 2 anos um diagnóstico realizado por profissional experiente já pode ser considerado confiável”, destacou.
Mitos sobre o autismo ainda persistem
Mesmo com avanços, ainda há ideias equivocadas sobre o transtorno. Entre os mitos mais comuns estão a associação com vacinas, a crença de que o autismo é causado pela criação dos pais ou a generalização de que todas as pessoas autistas possuem deficiência intelectual ou altas habilidades.
“As evidências citadas pelo CDC seguem mostrando que vacinas não estão associadas ao TEA. Além disso, o autismo é uma condição do neurodesenvolvimento, não causada por estilo parental”, afirmou a especialista.
Ela também destaca que o perfil intelectual varia. “Algumas pessoas autistas têm deficiência intelectual, outras têm inteligência média ou acima da média. E mesmo pessoas sem fala oral ou com fala limitada podem compreender muito mais do que os outros supõem.”
Desafios continuam na vida adulta
O autismo não se restringe à infância e acompanha o indivíduo ao longo da vida. Na fase adulta, os desafios incluem diagnóstico tardio, dificuldade de acesso a serviços especializados e barreiras no mercado de trabalho.
“Em adultos, os desafios podem incluir diagnóstico tardio, dificuldade de acesso a serviços especializados, sobrecarga sensorial, exaustão social, problemas de adaptação em ambientes de trabalho pouco flexíveis, ansiedade, depressão e isolamento”, disse.
Inclusão depende de mudanças práticas na sociedade
Para além da conscientização, a inclusão passa por adaptações no cotidiano e na forma como a sociedade se organiza.
“Isso significa usar comunicação mais clara, respeitar diferentes formas de interação, reduzir sobrecarga sensorial quando possível, evitar julgamentos sobre comportamentos autorregulatórios, acolher necessidades de previsibilidade e rotina, adaptar escola e trabalho e garantir acesso a serviços sem exigir que a pessoa ‘pareça autista o suficiente’ para ser validada”, explicou.
Ela conclui que inclusão vai além da tolerância. “Inclusão real não é apenas tolerar a diferença, mas construir ambientes em que a pessoa autista possa participar com dignidade, autonomia e apoio compatível com seu perfil.”